A pergunta surgiu cedo demais, quebrando o ritmo ainda frágil da manhã. Não tínhamos acabado de pousar o dia sobre as mesas, e já alguém ousava avançar. O silêncio que se seguiu foi curto, mas intenso, como um suspiro coletivo.
Observei o rosto de quem perguntara. Não havia ali ansiedade nem vontade de se mostrar. Havia curiosidade genuína, aquela que nasce antes da prudência e não sabe esperar pela ordem certa das coisas.
Deixei a pergunta no ar por alguns instantes, permitindo que respirasse. Algumas perguntas não pedem resposta imediata — pedem reconhecimento. Quando finalmente falei, percebi que já não respondia apenas a um aluno, mas àquela inquietação silenciosa que atravessava a sala.
A aula avançou diferente desde então, como se algo tivesse sido autorizado.
© Pedro Miguel Rocha