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O Silêncio como Último Luxo

Vivemos rodeados de ruído. Não apenas o ruído das cidades, mas o ruído permanente das notificações, das opiniões instantâneas, das urgências artificiais. O mundo moderno não nos deixa em paz — e talvez seja esse o seu maior triunfo e o seu maior fracasso. Nunca estivemos tão ligados; nunca estivemos tão pouco presentes.

Ler um livro tornou-se um desafio. Ouvir uma música até ao fim, um exercício de resistência. Apreciar uma obra, uma paisagem, uma ideia, exige hoje algo raro: silêncio interior. Não apenas a ausência de som, mas a calma necessária para estar verdadeiramente ali, sem pressa de chegar a outro lugar.

A cultura sempre precisou de tempo. Um romance pede entrega, uma sinfonia pede atenção, um poema pede pausa. Nada do que é profundo se revela à velocidade do “scroll”. O excesso de estímulos não nos torna mais ricos — torna-nos dispersos. E a dispersão é inimiga da compreensão, da emoção e do sentido.

O silêncio não é fuga ao mundo; é reencontro com ele. É no silêncio que a música ganha corpo, que as palavras respiram, que o pensamento amadurece. Sem ele, tudo se torna superficial, descartável, intercambiável. O ruído constante não nos informa — esgota-nos.

Talvez por isso o silêncio seja hoje um ato quase subversivo. Escolher desligar, abrandar, escutar com atenção é uma forma de resistência num tempo que confunde velocidade com vida. A calma não é passividade; é lucidez. Não é ausência de ação; é escolha consciente do que merece o nosso tempo.

No fundo, proteger o silêncio é proteger a nossa humanidade. É garantir que ainda somos capazes de sentir profundamente, de compreender com nuance, de apreciar sem distração. Num mundo veloz e barulhento, o silêncio tornou-se um luxo — mas também uma necessidade vital.

E talvez seja nele, nesse espaço tranquilo e esquecido, que a vida volta a falar connosco com clareza.

 

 

© Pedro Miguel Rocha