Durante décadas, fomos avisados. Cientistas, investigadores, instituições internacionais repetiram com rigor e persistência aquilo que muitos preferiram ignorar: o planeta estava a aquecer, os equilíbrios naturais estavam a fragilizar-se, o tempo para agir não era infinito. As evidências acumulavam-se, mas a resposta coletiva oscilava entre a hesitação, a conveniência política e a indiferença quotidiana.
Hoje, as consequências deixaram de ser previsões distantes. Manifestam-se em tempestades devastadoras, incêndios incontroláveis, secas prolongadas, ecossistemas em colapso e vidas interrompidas. O clima deixou de ser uma abstração científica — tornou-se experiência vivida. E, perante esta realidade, a pergunta ecoa com urgência: chegámos tarde demais?
Talvez seja a questão errada. A história humana raramente se move pela perfeição das escolhas, mas pela capacidade de corrigir erros. O atraso é real — e negar essa responsabilidade seria outra forma de evasão. Governos demoraram, políticas hesitaram, interesses económicos falaram mais alto. Mas também nós, cidadãos, aceitámos hábitos e comodidades sem interrogar o seu impacto.
Ainda assim, o fatalismo não é resposta. A Terra não precisa de desespero — precisa de consciência e ação. A ciência continua a indicar caminhos, a tecnologia oferece soluções, a mobilização social cresce. Não existe gesto isolado que resolva a crise, mas existe uma soma de decisões — políticas, económicas, pessoais — capazes de alterar trajetórias.
Salvar o planeta não é um ato heroico singular; é um compromisso coletivo prolongado. Implica repensar consumo, produção, energia, prioridades. Implica aceitar mudanças que exigem esforço. E, sobretudo, implica abandonar a ilusão de que somos espectadores de um problema que não nos pertence.
A questão essencial não é saber se já é tarde demais. É saber se estamos dispostos, finalmente, a agir com a maturidade que o momento exige. Porque a Terra não pede perfeição — pede responsabilidade.
E enquanto houver consciência, conhecimento e vontade, haverá ainda uma possibilidade. Não de regressar ao passado, mas de construir um futuro habitável.
O tempo que resta é incerto — mas o sentido do caminho depende, ainda, de nós.
© Pedro Miguel Rocha