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Democracia: O Valor que Resiste Quando Tudo Vacila

A democracia nunca foi um dado adquirido. Foi sempre uma conquista frágil, imperfeita, em permanente construção. Nasceu do conflito, cresceu na dúvida e sobreviveu graças à coragem de quem acreditou que o poder devia servir — e não dominar. Hoje, num mundo atravessado por guerras, desinformação, autoritarismos renovados e medos antigos, a democracia volta a ser posta à prova.

Vivemos um tempo em que a força reaparece como argumento, a mentira como estratégia e o medo como método. Há países onde votar deixou de ser escolha livre; outros onde a palavra perdeu valor; outros ainda onde a diferença se tornou ameaça. Neste cenário instável, a democracia parece lenta, vulnerável, por vezes cansada. Mas é precisamente aí que reside a sua grandeza.

A democracia não promete perfeição — promete dignidade. Não garante unanimidade — protege a diversidade. Não elimina o conflito — transforma-o em diálogo. É um sistema que confia mais na consciência do que na obediência, mais na palavra do que na força. E isso exige tempo, paciência e maturidade — virtudes raras num mundo apressado.

Defender a democracia hoje não é um gesto abstrato; é um compromisso quotidiano. Está no respeito por quem pensa diferente, na recusa da violência verbal, na defesa da verdade mesmo quando ela incomoda. Está na imprensa livre, na justiça independente, na escola que ensina a pensar e não apenas a repetir. Está, sobretudo, na ideia simples e revolucionária de que ninguém vale mais do que ninguém.

A democracia comove porque confia no ser humano apesar de todas as evidências contrárias. Acredita que somos capazes de aprender, corrigir, melhorar. Que podemos errar sem destruir. Que podemos discordar sem nos anular. Num mundo tentado pelo autoritarismo da certeza absoluta, a democracia é o espaço nobre da dúvida partilhada.

Talvez por isso incomode tanto. Porque exige responsabilidade onde outros oferecem submissão. Porque pede participação onde outros prometem ordem. Porque lembra, a cada geração, que a liberdade não se herda — cuida-se.

E enquanto houver quem a defenda não com gritos, mas com valores; não com medo, mas com esperança; não com exclusão, mas com humanidade — a democracia continuará viva.

Ferida, sim. Imperfeita, sempre.
Mas viva.
E enquanto estiver viva, o futuro continuará aberto.

 

 

© Pedro Miguel Rocha