As campanhas eleitorais tornaram-se o espelho inquietante do nosso tempo. Decorrem num espaço saturado de desinformação, alimentadas por redes sociais que privilegiam o choque à reflexão, a agressividade ao argumento, o instante ao futuro. Discute-se muito, grita-se mais ainda — mas fala-se pouco do essencial.
Nunca houve tantos meios para comunicar e nunca foi tão difícil compreender. A política passou a disputar atenção num território dominado pela velocidade e pela emoção. As ideias longas perdem para as frases curtas; a complexidade cede lugar ao slogan; a verdade torna-se secundária face à eficácia narrativa. Navega-se na espuma dos dias, enquanto os problemas estruturais permanecem submersos.
Neste ambiente, os candidatos atacam-se com ferocidade, como se o adversário fosse o inimigo e não um interlocutor democrático. Confunde-se confronto de ideias com destruição pessoal. E, nesse ruído constante, perdem-se as questões que verdadeiramente importam: a dificuldade das famílias em viver com dignidade, a precariedade que inquieta os jovens, a insegurança laboral que corrói o futuro dos trabalhadores, o acesso à habitação, à saúde, à educação.
A democracia empobrece quando a política se afasta da vida real. Quando deixa de ouvir para apenas reagir. Quando substitui a visão pela tática e o compromisso pelo cálculo. Uma campanha eleitoral deveria ser um tempo de esclarecimento e escolha consciente — não um espetáculo permanente de indignação fabricada.
Mas há ainda espaço para esperança. Porque o eleitorado, apesar de cansado, não é indiferente. Existe uma sede silenciosa de seriedade, de propostas claras, de líderes capazes de falar menos e pensar mais. A confiança não se conquista com ruído, mas com coerência. Não se impõe; constrói-se.
Talvez seja tempo de exigir campanhas que voltem ao essencial: menos ataques, mais ideias; menos algoritmos, mais humanidade; menos espuma, mais profundidade. Porque a política, quando se lembra do seu propósito, pode voltar a ser aquilo que nunca deveria ter deixado de ser — um instrumento ao serviço da vida concreta das pessoas.
E uma democracia que se atreve a descer à profundidade é uma democracia que ainda acredita em si própria.
© Pedro Miguel Rocha