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Racismo em 2026: A Sombra que a Consciência Ainda Não Dissolveu

É difícil aceitar que, em pleno ano de 2026, o racismo continue a existir. Difícil, não por falta de provas, mas pela consciência de que já tivemos tempo suficiente para aprender. Séculos de história, de sofrimento, de luta e de afirmação deveriam ter sido mais do que suficientes para dissolver uma das formas mais primitivas de negar a dignidade humana. E, no entanto, a sua sombra persiste.

O racismo não nasce da razão — nasce do medo. Do desconhecimento. Da necessidade frágil de afirmar superioridade onde não existe mérito. É uma construção artificial, sem fundamento biológico, moral ou intelectual, mas com consequências profundamente reais. Divide, humilha, exclui. E, ao fazê-lo, diminui não apenas quem é alvo, mas também quem o perpetua.

As sociedades desenvolvidas orgulham-se, justamente, dos seus avanços científicos, tecnológicos e institucionais. Mas o verdadeiro grau de desenvolvimento mede-se pela maturidade ética. E uma sociedade que tolera o racismo, mesmo de forma subtil ou silenciosa, permanece incompleta no seu progresso. Não basta condenar o racismo em abstrato — é necessário reconhecê-lo nas suas formas quotidianas, nas palavras que ferem, nos gestos que excluem, nas estruturas que perpetuam desigualdades invisíveis.

Combater o racismo exige mais do que leis, embora as leis sejam essenciais. Exige educação, desde os primeiros anos, que ensine o valor da diferença como riqueza e não como ameaça. Exige cultura, que amplie horizontes e aproxime experiências humanas diversas. Exige coragem individual — a coragem de não ficar em silêncio perante a injustiça, de não normalizar o que é moralmente inaceitável.

Cada geração recebe uma herança ética. E tem a responsabilidade de a melhorar antes de a transmitir. O racismo não é inevitável — é aprendido. E aquilo que é aprendido pode ser desaprendido, substituído por algo mais digno, mais justo, mais humano.

O futuro não se constrói apenas com tecnologia ou progresso económico. Constrói-se com consciência. Com a recusa clara de tudo o que diminui o outro. Com a afirmação firme de que a dignidade humana não admite gradações.

Talvez o verdadeiro sinal de evolução não esteja no que inventamos, mas no que finalmente conseguimos abandonar.

E o racismo é, sem dúvida, uma dessas coisas que a humanidade tem o dever moral de deixar para trás — de uma vez por todas.

 

 

© Pedro Miguel Rocha