Há épocas em que sonhar parece uma ingenuidade. A nossa talvez seja uma delas. Vivemos num mundo cada vez mais pragmático, digital, acelerado, onde a realidade é medida em resultados, métricas, audiências e impacto imediato. A prudência transformou-se em cinismo, a esperança em fragilidade, a bondade em suspeita. E, no meio deste ruído, os românticos, os idealistas e os utópicos parecem caminhar cada vez mais sozinhos.
São figuras estranhas ao espírito do tempo. Falam de paz num mundo armado de certezas. Falam de fraternidade num espaço público dominado pela agressividade. Falam de igualdade quando tantos reaprenderam a normalizar desigualdades. Falam de beleza, cuidado e harmonia numa sociedade que muitas vezes confunde velocidade com progresso e indignação com lucidez.
As redes sociais amplificaram o grito e diminuíram a escuta. As notícias falsas fragilizaram a confiança. Os extremismos oferecem respostas simples a problemas complexos. O ódio tornou-se, para muitos, uma forma de pertença. Neste ambiente, quem insiste em acreditar no diálogo, na gentileza e na possibilidade de um mundo mais justo é frequentemente tratado como ingénuo — ou, pior ainda, como irrelevante.
Mas talvez seja precisamente aqui que reside o erro.
A História nunca avançou apenas pela força dos pragmáticos. Avançou também — e muitas vezes sobretudo — pela teimosia moral dos que imaginaram o impossível antes de ele se tornar evidente. Todos os grandes direitos foram, em algum momento, utopias. A liberdade foi utopia. A democracia foi utopia. A igualdade entre seres humanos foi utopia. A paz entre antigos inimigos foi utopia.
O mundo precisa de quem execute, sim. Mas precisa igualmente de quem imagine. Precisa de técnicos, gestores, estrategas e decisores. Mas sem sonhadores, tudo isso corre o risco de servir apenas a manutenção do que já existe. São os idealistas que perguntam se o mundo, tal como está, é realmente aceitável. São os românticos que lembram que a vida não se resume à utilidade. São os utópicos que recusam a rendição ao cinismo.
Talvez estejam em minoria. Talvez estejam cansados. Talvez se sintam deslocados num tempo que recompensa a dureza e ridiculariza a ternura. Mas continuam a ser necessários. Porque uma sociedade sem sonhadores pode até funcionar — mas dificilmente saberá para onde vai.
O verdadeiro perigo não é haver demasiada utopia.
É haver pouca.
Num mundo saturado de ódio, ainda acreditar na paz é uma forma de coragem. Num tempo de radicalismos, defender a fraternidade é um ato de lucidez. E numa época que tantas vezes parece desistir do humano, continuar a sonhar talvez seja uma das últimas formas de resistência.
Os sonhadores não acabaram.
Estão apenas à espera que o mundo volte a compreender que nenhuma civilização sobrevive muito tempo sem aqueles que se recusam a deixar morrer a esperança.
© Pedro Miguel Rocha