Vivemos uma época de luzes intensas e caminhos escuros. A geração que hoje habita as escolas nasceu ligada ao mundo, mas desligada de si. Cresceu a navegar num oceano de imagens, sons e palavras sem rumo, onde tudo brilha e nada permanece. E, entre tanto estímulo, perdeu-se o silêncio onde a cultura floresce.
Os jovens de hoje conhecem os ritmos, mas não as melodias; sabem os nomes, mas não as vozes; reconhecem rostos, mas não obras. A literatura, que durante séculos ensinou a sentir, pensar e duvidar, tornou-se um rumor distante. A música, que era confissão e destino, foi reduzida a consumo rápido. A arte deixou de ser encontro — tornou-se distração.
Não é culpa deles. É o tempo que se tornou breve demais para o espanto. As referências que nos formaram — os livros, as canções, os poetas, os mestres — exigem um tempo que a pressa já não concede. Ler um romance é um ato quase subversivo; escutar uma sinfonia, um gesto de resistência.
Mas talvez ainda haja esperança. Cada geração encontra o seu farol quando alguém o acende. E cabe-nos, aos que ainda recordam o poder das palavras e da beleza, mantê-lo aceso — contra o ruído, contra o esquecimento, contra o vazio.
Porque o mundo só volta a ter direção quando a alma volta a ter referências.
© Pedro Miguel Rocha