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Portugal e Espanha: Tão Perto no Mapa, Tão Longe no Olhar

Poucos lugares no mundo partilham uma geografia tão íntima como Portugal e Espanha. Durante séculos, os dois países cresceram lado a lado, atravessando as mesmas montanhas, bebendo dos mesmos rios, olhando o mesmo Atlântico e o mesmo Mediterrâneo. Partilharam desafios, influenciaram continentes, deram ao mundo algumas das suas maiores expressões culturais. E, no entanto, continuam, muitas vezes, a viver de costas voltadas.

É um paradoxo difícil de explicar.

Os portugueses conhecem demasiado pouco da literatura espanhola contemporânea. Muitos espanhóis sabem ainda menos sobre a cultura portuguesa. As universidades cooperam aquém do possível, as empresas poderiam construir muito mais em conjunto e o intercâmbio cultural continua distante do enorme potencial existente entre dois povos que vivem separados por uma das fronteiras mais antigas e mais pacíficas da Europa.

Talvez parte desta distância tenha raízes históricas. Herdámos receios, preconceitos discretos, narrativas transmitidas de geração em geração. Durante muito tempo, aprendemos mais sobre países distantes do que sobre o vizinho do lado. Como se a proximidade tivesse criado uma estranha cegueira cultural.

Mas o século XXI oferece-nos uma oportunidade diferente.

Num mundo marcado pela instabilidade geopolítica, pela competição económica global e pela necessidade crescente de afirmação da Europa, Portugal e Espanha têm tudo para descobrir uma nova forma de caminhar juntos. Não para perderem identidade, mas precisamente para a fortalecerem.

As diferenças nunca deveriam ser um obstáculo. Pelo contrário. São elas que enriquecem qualquer relação madura. Portugal continuará profundamente português. Espanha continuará profundamente espanhola. Mas ambos poderão tornar-se mais fortes se aprenderem a conhecer-se melhor.

Há tanto por descobrir de um lado e do outro da fronteira. A literatura de Miguel Torga dialoga naturalmente com a de Miguel de Unamuno. O fado e o flamenco falam linguagens diferentes da mesma emoção. As universidades, os centros de investigação, as empresas, os artistas e as novas gerações têm diante de si um espaço de colaboração extraordinário que permanece, em grande medida, por explorar.

Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de olhar para a fronteira como uma linha de separação e começarmos a vê-la como uma ponte.

Porque os grandes desafios do futuro — a inovação, a transição energética, a desertificação do interior, a gestão da água, a ciência, a cultura, a defesa dos valores democráticos — dificilmente encontrarão respostas isoladas.

Portugal e Espanha não precisam de pensar da mesma forma.

Precisam apenas de aprender a pensar mais vezes juntos.

Talvez seja essa a verdadeira vocação da Península Ibérica: não apenas partilhar território, mas partilhar futuro.

Porque existem vizinhos.

E existem povos que, sem nunca deixarem de ser diferentes, descobrem que caminhar lado a lado é uma das formas mais inteligentes de crescer.

 

 

© Pedro Miguel Rocha