Há gerações que nasceram para reconstruir países devastados pela guerra. Outras tiveram de enfrentar crises económicas profundas ou períodos de instabilidade política. A geração que hoje entra na idade adulta enfrenta um desafio diferente: talvez seja a mais preparada de sempre e, paradoxalmente, uma das que mais dificuldade encontra em construir uma vida independente.
Nunca tantos jovens estudaram durante tantos anos. Nunca dominaram tantas línguas, tantas tecnologias, tantas competências. Cresceram a ouvir que o conhecimento abriria portas, que o mérito seria recompensado, que o esforço acabaria por encontrar o seu lugar.
Mas a realidade revelou-se mais complexa.
Encontrar trabalho tornou-se, para muitos, um percurso longo e incerto. E mesmo quando esse trabalho chega, nem sempre oferece estabilidade suficiente para planear o futuro. A precariedade prolonga-se, os contratos sucedem-se, as expectativas adiam-se.
Depois surge um obstáculo ainda maior: a habitação.
Ter uma casa, durante décadas um passo natural na construção da vida adulta, transformou-se num objetivo distante para milhares de jovens. Comprar tornou-se, muitas vezes, impossível. Arrendar exige rendimentos que não acompanham os salários. E assim, o sonho simples de construir um lar, formar uma família ou viver com autonomia vai sendo sucessivamente adiado.
Mas talvez a maior consequência desta realidade não seja económica.
É emocional.
Quando uma geração sente que trabalha, estuda, se esforça e, ainda assim, continua sem conseguir conquistar a sua independência, instala-se uma sensação silenciosa de injustiça. Não porque espere privilégios, mas porque aspira apenas àquilo que todas as gerações desejaram antes dela: uma oportunidade justa para construir o próprio caminho.
Uma sociedade não pode habituar-se a pedir paciência infinita aos seus jovens. Porque são eles que transportam o futuro coletivo. Sempre que um jovem desiste de um projeto de vida, adia a parentalidade, abandona o país ou perde a esperança, toda a sociedade empobrece um pouco.
Este não é apenas um desafio para os governos. É um desafio para empresas, universidades, municípios e para todos aqueles que acreditam que o progresso se mede também pela capacidade de criar oportunidades. Investir nos jovens não é um gesto de generosidade. É um exercício de inteligência coletiva.
Apesar de tudo, esta continua a ser uma geração extraordinária.
Criativa. Solidária. Aberta ao mundo. Capaz de aprender depressa e de se adaptar como poucas antes dela. Merece, por isso, muito mais do que discursos de circunstância. Merece condições para transformar talento em futuro.
Porque nenhum país poderá aspirar a prosperar verdadeiramente enquanto os seus jovens viverem permanentemente à espera de começar a viver.
E talvez o maior investimento que uma nação possa fazer nunca seja numa infraestrutura, numa tecnologia ou numa estatística económica.
Talvez seja, simplesmente, devolver aos seus jovens aquilo que nunca lhes deveria faltar: a confiança de que o futuro também lhes pertence.
© Pedro Miguel Rocha